Contexto Histórico da Freguesia do Parque das Nações

A ponte romana sobre o rio Trancão

De acordo com as primeiras notícias históricas deste território, de que há memória, remonta ao período romano, entre o sec. II a.C. e I d.C., a construção de estradas e pontes. É o caso da ponte sobre o rio Trancão onde passavam as duas vias romanas, a Via XV a Emérita Augusta (ligava Lisboa a Mérida) e a Via XVI a Bracara Augusta (ligava Lisboa a Braga):
Os Romanos sabiam fazer pontes. E fizeram. Uma de quinze arcos (…). 
E essa foi a Estrada do Parque das Nações durante milhares de anos.(1)


A batalha de Sacavém, nesse mesmo local, fez história no sec. XII aquando da conquista de Lisboa aos muçulmanos.
Para fundar Portugal, D. Afonso Henriques deu aí batalha ao invasor, na Ponte de Sacavém com as Nações de Cruzados, antes de ir repousar na Igreja de S. Félix e Santo Adrião a Chelas, para depois libertar Lisboa (1)

Francisco da Holanda, em 1571, faz o desenho da Ponte de Sacavém e refere-a da seguinte forma: 
E logo, devem ser edificadas novas pontes, ou ser reedificadas as que fizeram os Romanos, no redor de Lisboa e Sacavém e outras.(1)


A Quinta de Beirolas deu lugar ao Quartel de Beirolas

Por ordem d’ El Rei, D. Pedro II manda o Duque do Cadaval, Mestre-de-Campo General, comprar a Quinta de Beirolas para aí instalar os Quartéis dos Regimentos, para a defesa da Cidade com armazéns de pólvora. Mais tarde, em 1808, amplia-se a linha de defesa de Lisboa da Torre de Belém a Beirolas pelo Major António José Vaz Velho. Do mesmo modo, o Parque das Nações foi pano de fundo da Guerra Civil portuguesa ou Guerra Miguelista.
Laura Junot, como Embaixatriz, navega pelo Tejo e passeia pelo Parque nas suas idas às Caldas da Rainha. As Linhas de Torres Vedras e o depósito de Beirolas garantem a independência e abrem as portas à Guerra Civil. E o Parque viu um Herói da Independência, General Sepúlveda, passar do Campo Liberal (tinha sido membro do Sinédrio do Porto) após ter exercido as funções de Comandante Militar de Lisboa em 1826, aderir à Vilafrancada e ocupar o quartel do Depósito de Beirolas às ordens de D. Miguel.(1)


Território agro-pastoril e piscatório versus industrial

No território do Parque sempre esteve presente esta dualidade entre espaço rural - de quintas e palacetes onde a monarquia ia e vinha para fazer as suas férias não muito longe do reboliço da cidade de Lisboa - e o desenvolvimento industrial, já nos finais do séc. XVIII. Também aqui se foram desenvolvendo as infraestruturas relacionadas com os transportes, levando e trazendo pessoas e mercadoria.
Então, já se conhecia bem o Parque, e as Cartas de Beirolas de 1851 anteveem o percurso do Carril de Ferro que atravessa o Parque. A 28 de Outubro de 1856, o comboio passa e, em 1859, dizem: A linha é de Leste. Nunca mais deixou de trazer Nações até e pelo Parque. Agora, Estação do Oriente. 
E quem viaja pela sua Terra sabe que depois das hortas de Chelas vinham as Quintas do Conde de Óbidos, do Souto, da Praia, dos Buracos, do Santo, do Ché, da Centeeira, dos Paios, da Barroca, do Convento, das Rolas, a Quintinha e a Quinta de Cabo Ruivo, todas ao longo e na Riba do Tejo.(1)


A par das atividades agro-pastoril, que se completavam com as pescas, a nobreza fundiária que vinha para veraneio e lazer movimentava-se em paralelo com um clero repartido pelos vários conventos. Já no séc. XIX assiste-se à instalação da indústria pesada, não só devido à disponibilidade de espaço a baixo custo, como à tentativa de salvaguardar a saúde da respetiva população com o afastamento da poluição das fábricas da cidade.
Enquanto a zona ocidental e nobre da cidade acolhia a Exposição do Mundo Português, instalava-se a refinaria da SACOR em Cabo Ruivo, o matadouro nos Olivais e vazadouros de lixo ao longo da faixa ribeirinha quase a chegar a Vila Franca de Xira.(1)
É neste contexto que surge a intenção de conceber um projeto que, contemplando a realização da Expo'98, contribuísse para a reabilitação da zona oriental de Lisboa e que, simultaneamente, tirasse partido de uma série de projetos que se preparavam para aquela área: a construção da Ponte Vasco da Gama; a transferência do terminal petrolífero, da unidade de refinação e de boa parte da atividade portuária para o porto de Sines; o encerramento do matadouro, das indústrias de armamento, do aterro sanitário e da estação de compostagem (Baptista 2004).(2)



O aeroporto de Cabo-Ruivo e a ponte aérea com EUA

Foi em 1939 que amarou pela primeira vez no rio Tejo um hidroavião Clipper vindo das Américas.
Tratava-se de um hidroavião Boeing de matrícula B-314 NC 1863. Era conhecido por “Yankee Clipper”. Fora batizado, pela Senhora F. D. Roosevelt em 3 de Março de 1939. No dia 26 do mesmo mês, era Comandante H. E. Gray que o levou por Foynes, na Irlanda e, depois via Açores até Lisboa, para ir até Marselha e até Southampton.(1)

Muitos judeus fugidos da Segunda Guerra Mundial, e por inerência ao império nazi, utilizavam esta autoestrada aérea para se deslocarem com mais segurança para os EUA. O aeroporto da Portela de Sacavém abre em 1943, assim como a Avenida Entre Aeroportos. 

 
Da Expo'98 ao Parque das Nações

À semelhança de muitas outras exposições internacionais e universais que foram acontecendo noutras capitais mundiais, também esta foi um “desígnio nacional” e a oportunidade há muito aguardada pela cidade, de recuperar para uso urbano terrenos industriais e portuários obsoletos, seguindo o modelo de muitos outros casos desenvolvidos em cidades ribeirinhas estrangeiras. 
Desta forma, o recinto expositivo foi envolvido numa enorme operação de regeneração urbana e social, compreendendo cerca de 330 hectares ao longo de cinco quilómetros de frente ribeirinha. Uma vez liberto do uso industrial e portuário, este terreno converter-se-ia na nova centralidade urbana e multifuncional de Lisboa, assemelhando-se ao modelo da Vila Olímpica de Barcelona, tanto em termos urbanísticos como em termos processuais.
Para isso também contribuíram fatores como a localização, alguns equipamentos de exceção e a valorização espacial resultante de uma infraestruturação técnica sem precedentes em Portugal, algumas soluções arquitetónicas à época e uma carga simbólica ligada ao evento - que esteve na génese daquele projeto urbano. 
A este novo conjunto residencial, cultural e de negócios deu-se o nome de Parque das Nações e a sua singularidade tanto ficou a dever-se à dimensão, projeção e construção de raiz, como à celeridade da mesma (cerca de dez anos) e a algumas soluções urbanísticas e arquitetónicas que apresenta. Tudo isto o Parque das Nações recebeu dos seus promotores a designação de “Cidade Imaginada”.(2)


A Expo 98 foi inaugurada dia 22 de maio de 1998 e encerrada em 30 de setembro de 1998. Recebeu a visita de quase 10 milhões de pessoas e tinha cinco pavilhões temáticos: Pavilhão de Portugal, da Utopia, do Futuro, do Conhecimento dos Mares e o Oceanário, e ainda pavilhões nacionais. Estiveram presentes 146 países.
Anos mais tarde, em 13 de novembro de 2012, na sequência do processo de reorganização administrativa de Lisboa (Lei 56/2012), foi criada a freguesia do Parque das Nações, englobando território onde decorreu a Expo 98 (então na freguesia de Santa Maria dos Olivais) e território que estava englobada nas freguesias de Sacavém e Moscavide (do concelho de Loures). Aquando da criação, a freguesia do Parque das Nações já tinha 21 025 habitantes, numa área de 5,44 km².


Bibliografia
1) CARVALHO-RODRIGUES, Fernando. “As Nações fizeram daqui Parque” 1 de Dezembro de 2012
2) GATO, Maria Assunção. “Viver no Parque das Nações. Espaços, Consumos e Identidades”, p. 38 e 39